O suicídio e sobre quem fica: como sobreviver à perda de alguém que se ama

O suicídio e sobre quem fica: como sobreviver à perda de alguém que se ama

Sobre quem fica

A AFSP (American Foundation for Suicide Prevention), nos Estados Unidos, denomina de suicide survivors (sobreviventes do suic√≠dio) os parentes e amigos que sofrem a perda. Segundo a psicóloga, esses indiv√≠duos precisam de aten√ß√£o, acolhimento e cuidados, pois o impacto da perda por suic√≠dio pode suscitar os mais diversos sentimentos e rea√ß√Ķes, entre eles, uma grande sensa√ß√£o de culpa.

"Quem perde alguém para o suic√≠dio desenvolve v√°rios sintomas de adoecimento f√≠sico e psicológico, como insônia, falta de apetite, tristeza profunda, falta de energia, depress√£o, entre outros. Sentimentos de abandono e trai√ß√£o s√£o naturais nesses casos. H√° quem sinta dificuldades em aceitar que n√£o percebeu os sinais, que pode ter sido negligente e que n√£o fez nada para evitar. Em suma, o suic√≠dio deixa marcas e um misto de sentimentos confusos em quem fica", pontua Fl√°via Teixeira.

O luto

É o processo de elabora√ß√£o de uma perda. No caso do suic√≠dio, o luto tende a ser permeado pela busca de explica√ß√Ķes e prov√°veis vest√≠gios que possam clarificar o motivo que levou seu parente ou amigo a tirar sua própria vida. Os questionamentos se repetem e nunca h√° uma resposta que justifique a tragédia.

"Cada um tem seu próprio tempo e modo de vivenciar o luto. Mas o processo pode ser mais dif√≠cil neste caso, j√° que ainda h√° muitos tabus acerca do suic√≠dio, fato esse que dificulta a valida√ß√£o dos sentimentos de quem sofre a perda. Geralmente, a pessoa n√£o encontra muito espa√ßo para desabafar sua dor".

Datas comemorativas, como anivers√°rio, Natal ou réveillon perdem um pouco do encanto. "É como se a alegria destes eventos tivesse ido embora junto com a pessoa querida. Torna-se praticamente imposs√≠vel passar o Natal sem lembrar dos momentos felizes com quem se foi. Da√≠ a import√Ęncia de respeitar os limites da pessoa enlutada, cabendo somente a ela escolher como prefere lidar com as lembran√ßas e os sentimentos que surgem nestas épocas", pondera Fl√°via Teixeira.

Como sobreviver

N√£o existe um manual padr√£o de como sobreviver às perdas. As rea√ß√Ķes de quem vive ou viveu essa experi√™ncia dolorosa s√£o muito particulares, até porque elas dependem do tipo de relacionamento que se tinha, do v√≠nculo afetivo e, principalmente, da estrutura de personalidade da pessoa.

"N√£o h√° certo nem errado, e ninguém deve se cobrar e se culpar por nada. O tempo de cada um precisa ser respeitado, sem julgamentos e censura", refor√ßa a psicóloga. Segundo ela, o ideal é estar perto de pessoas e lugares que a fa√ßam se sentir acolhida e aceita.

Grupos terapêuticos de suporte e apoio podem contribuir para o indivíduo desenvolver recursos internos que ajudarão a lidar com a nova realidade. "A troca de experiências promove aprendizados, crescimento pessoal e serve de ferramenta para auxiliar a pessoa a seguir sua vida, o que não significa esquecer quem partiu, mas inseri-lo em uma outra perspectiva de significado e sentido", finaliza Flávia Teixeira.